A Europa produziu, durante os últimos séculos, um modelo para a universidade moderna que exportou para as suas colónias e não só. Actualmente, as instituições de educação superior estão a ser pressionadas por duas forças contrárias que, nas suas próprias palavras, podem ser descritas como sendo:
O “conhecimento universitário” que é a base de um modelo hegemónico universalizador que, na nossa opinião, também trai o modelo tradicional da universidade moderna europeia;
O “conhecimento pluriversitário” que promove os saberes ecológicos, plurais e contra-hegemónicos.
Em consequência, gostaríamos de lhe colocar as seguintes perguntas:
As tendências transformadoras que identifica no seio da universidade para o século XXI apontam para um panorama muito diverso, mas também contraditório. Como vê, e/ou prevê, a coexistência, por um lado, de um impulso para a internacionalização e transnacionalização dos sistemas de educação superior e, por outro lado, o impulso, até certo ponto oposto, para interculturalizar, regionalizar e localizar uma universidade linguística e culturalmente relevante?
Boaventura Sousa Santos (BSS): As duas tendências coexistem mas não com igual intensidade. A tendência para a transnacionalização é, de longe, o factor dominante. É promovido pelas forças que apostam em converter a educação universitária num serviço altamente rentável para o investimento de capital. Decorre, na maior parte dos países, do sub-financiamento das universidades
públicas e das necessidades evidentes de mão-de-obra qualificada para o capitalismo global. Esta constitui uma das dimensões do que chamamos a neoliberalização da universidade. As outras dimensões são: as classificações (rankings) globais das universidades; a emergência das universidades globais e o licenciamento (franchising) de cursos e graus; a normativização (streamlining) da docência e da investigação a partir de indicadores quantitativos; a gestão de universidades como um outro negócio qualquer.
A segunda tendência começou como um movimento reformista ofensivo impulsionado por dois tipos de transformações. Por um lado, os grupos sociais que lutavam pelo reconhecimento da diferença cultural, histórica, sexual, regional e etno-racial. O modelo universitário masculino, colonialista, monocultural e eurocêntrico (que presidiu à criação das universidades a partir do século XIX) gerou culturas institucionais e inércias que bloquearam activamente esse modelo. No entanto, por meio do activismo politico e educacional desses grupos, foi sendo gradualmente aceite e considerada legítima uma maior diversidade, que veio a ser apelidada de pluralismo interno da ciência permitindo que novos programas de investigação se tivessem tornado cada vez mais credíveis. Por outro lado, os movimentos sociais e grupos de cidadãos foram exigindo que o conhecimento científico se envolvesse mais directamente na solução de problemas que afectavam as suas vidas. As universidades tinham promovido uma arrogante cultura de distância e de indiferença em relação aos problemas concretos da cidadania. O activismo de cidadãos, em articulação com cientistas empenhados, conseguiram colocar a busca de relevância e responsabilidade social na agenda política universitária. É assim que surge a outra dimensão de pluralismo interno da ciência. Em ambos os casos, o conhecimento científico iniciou um contacto mais próximo com outros saberes e, por vezes, reconheceu a sua validade, uma validade “local”,sempre confinada aos limites de uma experiência social onde esses modos de conhecimento-não-académico tinham sido gerados.
Constato que esta segunda tendência perdeu energia nas últimas duas décadas e se encontra agora na defensiva. A crise financeira é invocada, em todo o mundo, com o intuito de destruir a diversidade e a diferença; a relevância é transvestida numa palavra de ordem que legitima o subfinanciamento das ciências básicas e das ciências sociais e humanas e para desviar fundos para áreas de interesse para a acumulação capitalista – ciência aplicada ao desenvolvimento de produtos – que se tem tornado a nova prioridade e que tem modificado irreconhecivelmente as universidades.
Se o valor do conhecimento continuar a ser transformado em valor de mercado, ao ritmo actual, suspeito que, em algumas décadas, a universidade como nós a conhecemos será coisa do passado. Temos de nos preparar para a refundação da
universidade.
Devido à cada vez menor intervenção estatal, a nível nacional, na direcção e financiamento das universidades e dos programas de investigação, que acontece por todo o mundo, a educação superior está cada vez mais à mercê da globalização hegemónica e do capitalismo neoliberal. Até que ponto considera que os programas de extensão universitária e comunitários podem reverter esta tendência, no sentido de uma produção de conhecimento mais democrática no próprio terreno, e que aqueles devem ser também adoptados pelas universidades públicas tradicionais, e seus centros de investigação, pela Europa e outros?
BSS: Os programas de extensão universitária e comunitários que mencionam fazem parte do movimento de resistência que referi em cima. Com muita coragem, algumas universidades continuam a promovê-los e até a expandi-los. Mais do que nunca, este é um movimento contra-hegemónico e, certamente, deveria ser seguido por um número de universidades cada vez maior. Mas, como disse, o ambiente institucional e financeiro nas universidades vem conspirando para sufocar todos esses programas.
Ao promover as “Epistemologias do Sul” (Epistemologies of the South) o Boaventura afirma que um sentimento de exaustão assombra a tradição crítica ocidental eurocêntrica (“a sense of exhaustion haunts the Western, Eurocentric critical tradition”), que foi o pilar principal na fundação das Humanidades nas universidades ditas clássicas em todo o mundo. Que impacto pode este quadro conceptual, baseado numa “ecologia de saberes” e incorporando a perspectiva do conhecimento gerado pelas epistemologias do Sul, ter no futuro papel das Humanidades no ensino superior?
BSS: A proposta das Epistemologias do Sul que tenho vindo a defender poderia contribuir para a refundação da universidade para que apelei acima. Estamos a entrar num período em que formas de desigualdade social e de discriminação social moralmente repugnantes estão a tornar-se politicamente aceitáveis, ao mesmo tempo que as forças sociais e políticas que costumavam desafiar este
estado de coisas em nome de alternativas sociais e políticas estão a perder energia e, em geral, parecem estar, em todo o lado, na defensiva. Em geral, as ideologias modernas de contestação política têm sido co-optadas pelo neoliberalismo. Há resistências, mas têm ocorrido, cada vez mais, fora das instituições e não por meio da mobilização política a que estavamos habituados anteriormente: partidos politicos e movimentos sociais. A política dominante executada numa articulação entre o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado, tem vindo a assumir uma dimensão epistemológica na medida em que se tem proposto eliminar qualquer alternativa e desacreditar qualquer conhecimento alternativo (incluindo o conhecimento científico alternativo) que fundamente essas alternativas políticas. A política dominante torna-se epistemológica quando consegue ser credível ao reclamar como único conhecimento válido aquele que ratifica o seu domínio. Neste Geist épocal, parece que a saída para este impasse se fundamenta na emergência de uma nova epistemologia que seja explicitamente política. Isto significa que a reconstrução ou reinvenção de uma política confrontacional exige uma transformação epistemológica. Como costumo dizer, não precisamos de alternativas: precisamos de um pensamento alternativo de alternativas. As epistemologias do sul – ao privilegiar conhecimentos (sejam eles científicos ou artesanais/práticos/populares/empíricos) que surgem das lutas contra a dominação – são parte dessa transformação epistemológica. Do meu ponto de vista, uma nova, polifónica, universidade (ou melhor, pluriversidade) pode emergir à medida em que esta transformação se desenrola. Não há certeza de que tal ocorra. Mas no caso de ocorrer, ouso pensar que as epistemologias do sul venham a desempenhar um papel de relevo. Eu posso apenas contribuir com
uma espécie de consciência antecipatória, colocando o futuro ante os nossos olhos, como se estivesse aqui e agora...>LER MAIS