Mário Vitória (2013) A liberdade comovendo o povo [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destaque Semanal

Algumas pessoas compõem canções, outras pintam quadros ou contam estórias, e há ainda aquelas que fazem revoluções para mudar o mundo. No mar infindável das possibilidades de(...)
Fernando Perazzoli, Flávia Carlet

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Algumas pessoas compõem canções, outras pintam quadros ou contam estórias, e há ainda aquelas que fazem revoluções para mudar o mundo. No mar infindável das possibilidades de(...)
Fernando Perazzoli, Flávia Carlet

 

 

Che Guevara

Maisa Antunes
Publicado em 2022-07-16

Justiça e poesia: no coração revolucionário de Che Guevara

 

Se fores capaz de tremer de indignação cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.” Che Guevara

 

Ernesto Guevara de la Serna morre aos 39 anos em 09 de outubro de 1967. Jovem na idade, jovem na atitude, tinha uma personalidade forte e errante. Um homem angustiado com as injustiças, introspectivo e com uma emotividade aguçada. Morre lutando pela liberdade, em combate ao que, desde cedo, identificou rapidamente como inimigo: o imperialismo, o colonialismo, a opressão contra os povos, o autoritarismo, a oligarquia local e a injustiça acometida contra cada pessoa. Che Guevara deixou-nos o seu legado maior: sentir no mais profundo “qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo”, esta “é a mais bela qualidade de um revolucionário” (Meditações de Che Guevara. In: Che Guevara. Alma Azul, 2009: 39).


Ainda na adolescência, torna-se um leitor apaixonado. Acessa a literatura de Oscar Wilde, Charles Baudelaire, Goethe, José Hernández, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Antonio Machado, Pablo Neruda e García Lorca. Mais tarde na Sierra Maestra, em pleno combate, Che sempre encontrava um tempo para a literatura. O contato com a poesia desde cedo, talvez tenha encurtado o seu caminho em direção ao universo humano, que ele apreendeu também no convívio direto e constante com a sua solidão e com as solidões que lhes sorriam e lhes choravam, em cumplicidade nos livros e na vida.


O gosto intenso pela poesia veio, de forma notória, pela influência da sua mãe. Célia de La Serna teve uma educação católica, entretanto tornando-se uma mulher de pensamento livre e possuidora de um temperamento que tendia para um sentimento socialista e anti-clerical, além de um pensamento anti-conservador. Participou dos movimentos das mulheres argentinas nos anos 20. Che teve também uma relação muito afetuosa e próxima com a avó paterna, Ana Lynch, uma mulher liberal, extemporânea, que possuía em seu espírito algum tipo de revolta diante de valores conservadores da época.


Che educou-se em escola pública. A educação pública da Argentina neste período formou a primeira geração escolarizada, sendo uma instituição de convivência de pessoas da cidade, do campo, de diferentes origens, inclusive das origens mais humildes. Castañeda (1997) considera que esta experiência contribuiu para alimentar a sensibilidade de Che diante das desigualdades sociais.


Começa a ler Marx e Engels aos 17 anos, tornando-se leitor também de Simon Bolívar e José Martí. No entanto, a sua atuação política ultrapassava os limites das identificações partidárias, porque Che era movido por sentimentos de revolta, advindos da consciência da realidade, nascidos e impulsionados principalmente pelo seu hábito de encharcar-se de vida. Che era uma vontade que pulsava com consciência diante das injustiças que se materializavam naquela época. 


Antes de tornar-se médico, faz uma viagem com seu amigo Alberto Granado, pela América Latina. Conhece a realidade dos países através da vida dos camponeses, indígenas e imigrantes, bem como das populações mais carentes. E como a prática sempre lhe veio à frente, antes de ter o diploma, na ocasião dessa viagem, já atua como médico. Na experiência de cuidar de pessoas leprosas, Che pensou sobre a importância da medicina e sua sensibilidade encontrou uma reflexão coerente: a forma de como tratar as pessoas doentes fazia diferença. Agora uma impaciência pesava na mochila puída de Che. Em sua bagagem, a revolta de ter vivenciado muito de perto com a realidade resultante da atuação do inimigo: desigualdades sociais e exploração dos povos pelo capitalismo.


Volta para Argentina, conclui o curso de medicina. Planeja viajar para Venezuela para  trabalhar com Granado. Entretanto inaugura-se um movimento político de derrubada de um longo período de ditadura militar na América Central, precisamente em Guatemala, tal cenário muda o roteiro do errante viajante em busca de justiça. As ações iniciadas no governo de José Arévalo e continuadas pelo seu sucessor, Jacobo Arnenz, desencadeiam um processo de luta contra o trabalho forçado, pelo aumento dos salários, inicia-se programa de assistência aos povos indígenas, decreta-se a lei de reforma agrária, o que ameaça o latifúndio da companhia americana United Fruit. Este movimento é interrompido pelo imperialismo norte-americano. Che segue para o México.


Há também no México alguns exilados cubanos. Casa-se com a economista peruana Hilda Gadea com quem tem uma filha. À época, Hilda Gadea era dirigente do Partido Aprista Peruano – APRA rebelde, de dissidência marxista. Conheceram-se ainda na Guatemala. Hilda exerceu uma influência forte na vida de Che, cuidou dele, apresentou-lhe pessoas. A orientação teórica marxista de Hilda Gadea era mais nítida que a de Che. Emprestou-lhe livros e tiveram longas conversas sobre os movimentos revolucionários que aconteciam no contexto latino americano.


Em uma das noites frias do México, Che encontra-se com o calor do seu próprio destino: tornar-se quem é, um guerrilheiro revolucionário, cheio de ternura e amor. Através de Raúl Castro, conhece seu irmão Fidel Castro. Depois de longas conversas e encontros com Fidel, Che passa a fazer parte do Movimento 26 de Julho, movimento revolucionário cubano, fundado em 1954 por Fidel Castro e seus companheiros, contra o ditador Fulgencio Batista. Che passa por um curto tempo de preparação militar. Ele mais 81 homens partem na embarcação Granma rumo a Cuba, no dia 25 de novembro de 1956, sustentados pela vontade de libertação do imperialismo norte-americano. A frase de Fidel “seremos livres – ou mártires” tem o peso e a leveza daquele momento que se concretiza nos primeiros passos em direção à revolução cubana. O sentimento anti-imperialista chega ao ponto mais convicto e a sua fase comunista é dura e pura.


Dos 82 homens que desembarcaram na Playa de las Coloradas, no dia 02 de dezembro de 1956, poucos ficaram vivos – dentre eles, Fidel Castro, Che Guevara e Raúl Castro – que vão forjar o exército rebelde rumo à revolução de Cuba. Bombardeados na chegada, enfrentam dias e noites de fome, sede, frio e trabalho para alcançar a Sierra Maestra, onde atuam com as estratégias da guerra de guerrilha para adentrar Cuba. Na guerra da guerrilha para a revolução em Cuba, Che conhece a guerrilheira cubana Aleida March, com quem casa e tem quatro filhos.


No encontro com seu destino, Che refaz fronteiras, rompe com seu país, com o exercício institucionalizado de sua profissão; sacrifica o convívio com a família, com os filhos, com os irmãos e com os pais. Che era exigente com os outros, mas não era menos consigo próprio: “Chefe fraternal e humano, sabia também ser exigente e, quando preciso, severo; mas, em primeiro lugar e em maior grau, era-o consigo mesmo. Che baseava a disciplina na consciência moral do guerrilheiro e na força tremenda do seu próprio exemplo”, escreve Fidel Castro na introdução do livro Diário Che Guevara (1980: 6). O percurso da luta, caminha lado a lado com a vida, quando Che estava lutando na guerrilha do Congo em África recebe, como ele mesmo diz, “a notícia mais triste da guerra”: a notícia da morte da sua mãe.


Che Guevara colocou-se como instrumento na luta contra o imperialismo, contra o colonialismo, contra o neocolonialismo. No início de novembro de 1966 ele chega na Bolívia. A instabilidade política do país, inclusive no próprio partido comunista, deixa a guerrilha em estado de vulnerabilidade ao ataque do inimigo o que provoca a derrota da guerrilha, morte excessiva de guerrilheiros e a morte de Che Guevara.


Os Mestres do Mundo são como fogueirinhas: Che – Um Mestre do Mundo


Dialogar com Che Guevara enquanto Mestre do Mundo é uma oportunidade de pensarmos se os atos, os pensamentos e as palavras andam se encontrando. Che foi um homem que sustentou este encontro, trabalhando com a mente e com o coração. Nas horas de descanso, apesar de as mochilas e os armamentos que, paradoxalmente, sustentavam os sonhos de ser livre do imperialismo, era com a poesia que Che ambicionava uma América Latina dona do seu próprio destino. Che Guevara foi um poeta da revolução.


Che foi movido pela vontade poética – poiesis – de mudar o mundo. Poderíamos dizer que a sua grande obra foi a revolução interior. E foi na revolução que Che aplicou um conhecimento carregado de uma revolta consciente, que se assemelha ao desassossego do(a) poeta. A sua poesia estava intimamente ligada a uma imaginação transgressora e o seu verso revelava uma profunda rejeição por todo o tipo de imperialismo.


Ao tornar-se um guerrilheiro, na sua própria construção como homem, tornou-se um “artista da guerrilha” (Castro, Fidel. Oração fúnebre para Ernesto Che Guevara. In: Che Guevara. Edição Alma Azul, 2009: 14), era esperança e amor que trazia no coração. Eduardo Galeano contempla-o e conclui: O erro imperdoável de Che era dizer o que pensava e fazer o que dizia; foi o seu erro e a sua força uma misteriosa energia, como lembra o poeta uruguaio, para além de sua morte e dos seus equívocos. Sim, Che acreditava com todas as forças no poder dos gestos e das palavras: “O que interessa são os fatos, as palavras que não concordam com os fatos não têm qualquer importância”, escreve Che no diário da Bolívia, dia 25 de março de 1967.


O poeta Pablo Neruda estremeceu-se ao saber  que seus versos acompanharam Che até a morte, e que um dos livros encontrados com o corpo de Che, na Bolívia, foi o Canto General. Che costumava ler o livro de poesia de Neruda à noite, para os guerrilheiros na Sierra Maestra. A alma de poeta é perceptível na personalidade de Che Guevara. Fidel Castro reflete esse legado em Oração fúnebre para Ernesto Che Guevara: “Poderá morrer o artista, sobretudo quando é o artista de uma arte tão perigosa como a luta revolucionária, mas o que de modo algum morrerá é a arte que ele consagrou a sua vida e a sua inteligência.” (Che Guevara. Edição Alma Azul, 2009: 15).


Apreendendo com Che


O seu hábito de leitura levou-o ao hábito da escrita. Por isso estava sempre acompanhado de seu diário, onde fazia anotações. Repetindo os dias vividos por meio destes escritos, Che repetia também os sentimentos. Esse exercício o ajudou a identificar os sinais do que deveria ser fortalecido e do que deveria ser combatido. Depois da revolução de Cuba, Che pode fazer naturalmente o cruzamento dessas realidades tão distintas e tão pertencentes da mesma história: O dia a dia da guerrilha, com a construção de um novo país, com a construção de um novo homem e de uma nova mulher.


Che considerava que o chauvinismo deveria ser combatido, uma vez que para ele tratava-se de um sentimento reacionário, ridículo e estéril. Combatia também o burocratismo estatal e partidário. Para ele, essa formação sufocava as iniciativas e impunha à sociedade um ritmo lento e impessoal. Com a revolução, na organização do estado socialista, o burocratismo precisava ser vencido, e para erradicar este mal, era necessário conhecê-lo, conhecer as causas e efeitos deste mal, para encontrar as possiblidades de corrigi-lo.


Também reconheceu a fronteira entre a prática e a teoria. Para Che, a teoria andava a passos lentos. Numa carta, enviada a Ernesto Sábato, fala acerca da formação de um novo pensamento, depois da revolução: “Así estamos ahora hablando un lenguaje que es también nuevo, porque seguimos caminando mucho más rápido que lo que podemos pensar y estructurar nuestro pensamiento, estamos en un movimiento continúo y la teoría va caminando muy lentamente, tan lentamente, que después de escribir en los poquísimos este manual que aquí le envío, encontré que para Cuba no sirve casi”. Che queria resolver os problemas com a agilidade que a vida guerrilheira lhe deu, aprendeu a caminhar como se estivesse vivendo os últimos momentos da vida. A hora da mudança era o agora. Os caminhantes da Sierra Maestra apreenderam a percorrer enormes distâncias em pouco tempo.


Depois da revolução de Cuba, a palavra guerrilheiro não voltou ilesa, Che compreendeu esse poder libertador da revolução. Com o cuidado de um poeta, ajudou a refazer o sentido dessa palavra, que antes da revolução estava relacionada aos que entraram na guerra para defender o colonizador espanhol. Guerrilheiro agora era: o combatente da liberdade, que luta pela libertação.


O guerrilheiro era agora um revolucionário. E um verdadeiro revolucionário “deve sempre ser íntegro”, “deve trabalhar todas as horas, todos os minutos da sua vida, com interesse sempre renovado e sempre crescente” (Meditações de Che Guevara. In: Che Guevara. Alma Azul, 2009: 39). Para Che, seremos revolucionários se formos capazes de sentir a dor dos demais como nossa própria dor, assim chegou à convicção que o verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor. Do pouco que conhecemos de Che, sabemos que, com todas as contradições que ele possa ter tido, ele levou a sério este ideal de beleza e amor, quando entendeu por revolucionário a pessoa que é capaz de sentir na própria pele a injustiça acometida contra outras pessoas.


Che analisa a luta guerrilheira como uma vanguarda a caminho da vitória, onde as condições subjetivas abriram fendas para a transformação do pensamento e dos hábitos. A palavra indivíduo também não regressa ilesa da revolução. Neste processo, “o indivíduo foi um fator fundamental, uma vez que este se trata de um “ator desse estranho e apaixonante drama que é a construção do socialismo, em sua dupla existência, de ser único e membro da comunidade”. Com a revolução, um futuro apressa um passado/presente e uma nova consciência individual é mobilizada na superação do individualismo burguês. Agora, depois da revolução, como afirma Che na continuação do texto O socialismo e o homem em Cuba: “o indivíduo se submete a um processo consciente de auto-educação”.


Essa consciência e vontade individual que Che Guevara elucida, leva-o a traçar um conceito para a palavra povo, como se lê no mesmo texto citado anteriormente: “Em seu conjunto, sólida armação de individualidades que caminha para um fim comum, indivíduos que alcançaram a consciência de que é necessário fazer homens que lutam por sair do reino da necessidade e entrar no da liberdade”, um conceito de povo que se articula ao conceito de indivíduos conscientes.


Nas epistemologias do Sul (Santos, 2018 – O Fim do Império Cognitivo), na luta contra a colonização, capitalismo, e patriarcado, comungamos com Che quando também levamos as nossas palavras para a realidade e vemos que regressam modificadas, transformadas e, através das pessoas em posição de rebeldia, serão também instrumentos da transformação, pela descolonização. Acreditamos na construção social da rebeldia, das subjetividades inconformistas e na capacidade de indignação. Estes aspectos alimentam a esperança na construção de uma “justiça cognitiva”, e assenta-se no processo de recriação do conhecimento, como um autoconhecimento.


Che – O nascedor


Pergunta Galeano em O Nascedor (2009: 308): “Por que será que Che tem esse perigoso costume de continuar nascendo? Quanto mais manipulam, quanto mais traem, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos”. Che nasceu antes do tempo e no tempo certo, 14 de junho de 1928, em Rosário, Argentina. Depois do dia 09 de outubro de 1967, ele continua nascendo.


Tornou-se uma promessa de liberdade, de vitória do bem sobre o mal, do justo sobre o injusto. Che era um justo. A sua fé, sua rebeldia, sua juventude continuam entre nós, nos ajudando a interpretar melhor as veias abertas da América Latina e as tantas veias obstruídas do mundo.


Hélio Freitas, um amigo comunista, escritor e poeta (Bahia – Brasil), contemplando certa ocasião o retrato de Che, disse-me, em 2016: “Existem homens que, pelo modo como se movem –  ou se moveram –, resultam moralmente superiores a outros homens.  Che Guevara foi um deles. Os que, ontem, planejaram e ordenaram o seu assassinato, hoje, por meio de escribas venais, da mídia de aluguel, tentam, raivosamente, desqualificá-lo. Mas sua memória continua a acalentar os corações revolucionários”.

 

 

Maisa Antunes: Pedagoga pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB; Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia – FACED/UFBA – Brasil; Doutora em Pós-Colonialismos e Cidadania Global, pelo Centro de Estudos Sociais – CES, da Universidade de Coimbra – Portugal. Professora do Departamento de Ciências Humanas DCH, Campus III (Juazeiro), da Universidade do Estado da Bahia – Brasil, desde 2006.

 

Referências


CASTAÑEDA, Jorge G (1997). Che Guevara: a vida em vermelho; tradução Bernardo Joffily. – São Paulo: Companhia das Letras.
Coleção Alma Azul (2009). Che Guevara. Alcains – Coimbra-Portugal: Alma Azul.
GALEANO, Eduardo (2009). Espelhos – Uma História Quase Universal; Tradução de Eric Napomuceno. – 2ª ed. – Porto Alegre, RS: L&PM.
GUEVARA, Ernesto (1980). Diário. Tradução: Olinto Beckerman. São Paulo: Centro Editorial Latino Americano.
El Ortiba – Coletivo de Cultura Popular (2016). Intercambio epistolar entre Ernesto Sábato y Ernesto “Che” Guevara. Consultado a 26 de abril de 2016, em http://www.elortiba.org/old/pdf/Cartas-Sabato-Che.pdf.
LG – Livros grátis.com.br. O socialismo e o homem em Cuba. Consultado a 26 de abril de 2016, http://livros01.livrosgratis.com.br/ph000156.pdf.
 

 

 

Como citar

Antunes, Maisa (2019), "Che Guevara", Mestras e Mestres do Mundo: Coragem e Sabedoria. Consultado a 07.12.22, em https://epistemologiasdosul.ces.uc.pt/mestrxs/?id=27696&pag=23918&id_lingua=1&entry=39618. ISBN: 978-989-8847-08-9